.: interlúdio :. Allan Holdsworth

Quando pensamos ou lemos sobre guitarristas influentes, é raro ver Allan Holdsworth mencionado. É um crime! E eu não entendo bem o motivo. Talvez a descrição da Wiki dê uma pista:

Holdsworth é conhecido por seu uso esotérico e idiossincrático de conceitos avançados de teoria musical, especialmente no que se refere à melodias e harmonias. Sua música incorpora um amplo campo de progressões complexas de acordes, frequentemente utilizando acordes inusitados de maneiras abstratas, e intrincados solos improvisados através da variação de centros tonais. Sua técnica particular de solos em legato vêm de seu desejo original de tocar saxofone. Sem dinheiro para comprar um, ele buscou usar a guitarra para criar linhas suaves de notas semelhantes às do sax. Ele também é associado a uma forma de sintetizador de guitarra chamada SynthAxe.

Muito complicado? Sendo completamente tapada em teoria musical, eu não identifico nada disso. Sim, ele soa diferente, o que é o seu charme e talento — mas não me parece difícil, distante ou acadêmico. Pelo contrário: é o que faz dele extremamente interessante, e o levou a ser referência não só no jazz fusion, mas também no rock e no metal. Além de ser citado como ídolo por pintas como Eddie Van Halen, Joe Satriani e Yngwie Malmsteen, Zappa dizia que era o guitarrista mais interessante do planeta. Além de sua influência marcante no prog metal, todo um subgênero basicamente deve seu desenvolvimento à mistura de metal técnico às abordagens dissonantes de Holdsworth. De fato, já vi dizerem que era um guitarrista de rock tocando jazz; eu não concordo, mas entendo o ângulo. Um bom exemplo é a faixa abaixo: o riff de abertura é hard rock, sem qualquer dúvida, antes do solo fluente (e inegavelmente fusion) iniciar.

(Os dois discos da The New Tony Williams Lifetime são um espetáculo à parte, aliás.)

Holdsworth gravou com meio mundo, além de uma série de discos solo. Parte da cena britânica do fim dos 1960/início dos 1970, estreou em 1969 com a ‘Igginbottom, uma banda de soft fusion onde também ofereceu seus vocais; prometeu jamais cantar de novo, o que é uma pena. Foi guitarrista de bandas menos conhecidas de prog/fusion, como Nucleus e Tempest; gravou Bundles com a genial Soft Machine, e três álbuns com a Gong; trouxe seu talento para jazzistas como Bill Brufford, Stanley Clarke e Gordon Beck, e está presente no meu disco preferido do Jean Luc-Ponty. E isso é só uma amostra; tocou com mais uma pá de gente que eu (ainda) não conheço. Holdsworth não se dava a estrelismos e, por isso, era bastante prolífico, pra nossa sorte.

Pra essa postagem, trago os dois primeiros lançamentos oficiais da sua discografia solo, meus favoritos. “Water on the Brain Pt. 2”, minha faixa preferida, é uma boa amostra do que se pode encontrar:

A partir de Atavachron, de 1986, passou a incorporar o uso do SynthAxe, a guitarra controladora de sintetizador, que expande a abordagem que já realizava: timbres suaves enfatizando texturas e com reverb generoso. Seus solos são vigorosos, inspirados, singulares. Navegar pelos seus álbuns exige alguma dedicação (dica: além dos que citei, cate The Sixteen Men of Tain, de 2000), mas o retorno é demais prazeroso. Apesar da apreciação irrestrita de seus pares, Holdsworth ainda merece maior aclamação popular. Generoso sobre sua técnica, deixando três livros e alguns vídeos onde explica sua abordagem, o guitarrista faleceu em 2017, aos 70 anos, ainda na ativa, e deixou um legado a ser descoberto e apreciado.

Allan Holdsworth – Road Games (1983). Aqui.
Allan Holdsworth – I.O.U. (1985). Aqui.

—Blue Dog

2 comments / Add your comment below

  1. Allan Holdsworth foi um fenômeno, um gênio da guitarra, um cara que mudou a linguagem do instrumento e ensinou tudo é possível em se tratando de solo de guitarra. É o guitarrista dos guitarristas, saudado por outros grandes músicos. A descrição acima retirada pela wikipedia é uma pequena amostra de seu talento e de sua técnica …
    Era um cara retraído, tímido, aparentava ser meio desengonçado, mas quando começava a tocar incorporava alguma entidade, sei lá, e durante duas horas mostrava o por quê era considerado genial. Sugiro procurarem seus vídeos no Youtube para entenderem o que estou falando.

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