BTHVN250 – Inspirados por Beethoven (Andriessen – Dean – Lindberg – Oehring – Rouse – Turnage)

Calma: estamos quase arrematando nossa homenagem a Beethoven pelo natalício. Como prometemos folga ao velho homem, deixaremos alguns de seus colegas contemporâneos aqui mostrarem a que vieram e o que fizeram com que Ludwig nos deixou.

Para começar, duas obras do australiano Brett Dean – que estudou na Alemanha e foi violista da Filarmônica de Berlim. Testament, naturalmente, refere-se ao Testamento de Heiligenstadt e aborda as sensações e sentimentos de Beethoven ante a inexorável surdez. A abertura, com sussurros do sopros e cordas tocadas com arcos sem breu, evoca a respiração do compositor e sua pena a singrar o papel. A irrupção de temas do primeiro dos quartetos “Razumovsky”, com o brilhante fugato, lembra a firme resolução com que, depois contemplar o suicídio, deixou Heiligenstadt para os vinte e cinco anos que lhe restaram de vida. Pastoral Symphony costuma, claro, ser pareada com a Sexta Sinfonia do renano. Após uma bucólica abertura festiva, surgem os sons que sugerem a devastação da Natureza que Beethoven evocou, e que o próprio Dean encontrou quando voltou para a Austrália. Em suas próprias palavras, “levem em conta nosso incansável e desrespeitoso saque das florestas e áreas selvagens do mundo, tudo em nome de mais consumo, autoestradas, estacionamentos e conveniência… Essa peça é sobre o glorioso canto dos pássaros, a ameaça que ele sofre, a perda, e o ruído sem alma que nos resta quando eles terminarem”.

O alemão Helmut Oehring, filho de surdos, cresceu com todos motivos para admirar e compreender Beethoven. Em GOYA I – Yo lo vi, ele lembra as trajetórias paralelas do renano e de seu contemporâneo espanhol, Francisco de Goya, cujas surdezes começaram na mesma época, levando-os ao isolamento. A atração inicial e posterior rejeição aos ideais napoleônicos também é abordada na obra, bem como os testemunhos oculares que ambos foram dos horrores da guerra (Yo lo vi refere-se a uma famosa gravura de Goya, que representa uma dramática cena com vítimas civis). Há citações da Eroica e da Vitória de Wellington – representativas da desilusão com Napoleão e da celebração de sua derrota -, bem como de concertos para piano e do sublime quarteto Op. 132. Os Two Episodes do finlandês Magnus Lindberg, por sua vez, servem como prelúdio para a Nona Sinfonia. Escritos para as mesmas forças orquestrais da obra mais velha, eles evocam, em ordem, o poderoso tutti do primeiro movimento e o Adagio molto e cantabile, numa homenagem ao compositor que, para Lindberg, “sempre representou o que significa ser um compositor contemporâneo”.

A provocativa The nine symphonies of Beethovende Louis Andriessen, foi composta para “orquestra e sineta de sorveteiro”. Estreada em 1970, durante o bicentenário do compositor, ela não manifesta qualquer objeção a Beethoven, e sim acerca da predominância de suas sinfonias no repertório, em detrimento de música contemporânea. Ela é, grosso modo, um mexidão das nove sinfonias em ordem cronológica, com intervenções de outros gêneros mais modernos (alguns ultramodernos), das onipresentes Pour Elise Sonata ao Luar, uma participação especial do Barbeiro de Sevilha e, claro, da sineta do sorveteiro.

Nossa compilação se encerra com duas obras de maior escopo. A primeira, a Sinfonia no. 5 do estadunidense Christopher Rouse, serve como homenagem explícita ao renano, que primeiro o impressionou aos tenros seis anos, justamente com sua Quinta Sinfonia. Quando chegou a sua vez de escrever sua Quinta, Rouse resolveu abri-la com a mesma famosa célula rítmica da contraparte, seguindo um plano semelhante ao dela, embora com linguagens completamente diferentes. Por fim, Frieze, de Mark-Anthony Turnage, cujo nome se refere ao “Friso Beethoven” de Gustav Klimt, obra fundamental do Palácio da Secessão em Viena,  foi composta para servir de prelúdio à Nona Sinfonia a pedido da mesma Royal Philharmonic Society que primeiramente a encomendou ao renano, e segue em seus quatro movimentos os mesmos estados de ânimo da obra icônica.


Brett Dean (1961)

1 – Testament, para orquestra de câmara (2008)

Tasmanian Symphony Orchestra
Sebastian Lang-Lessing, regência

2 – Pastoral Symphony, para orquestra de câmara (2000)

Svenska Kammarorkestern
H. K. Gruber, regência


Helmut OEHRING (1961)

3 – GOYA I – Yo lo vi, para orquestra (2006)

SWR Symphonieorchester
Rupert Huber, regência


Magnus LINDBERG (1958)
Two Episodes (2016)

4 – No. 1
5 – No. 2

Finnish Radio Symphony Orchestra (Radion sinfoniaorkesteri)
Hannu Lintu, regência


Louis ANDRIESSEN (1939)

6 – The nine symphonies of Beethoven, para orquestra e sineta de sorveteiro (1970)

Holland Festival Orchestra
Louis Andriessen, regência

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Christopher ROUSE (1949-2019)

Sinfonia no. 5 (2017)

Nashville Symphony Orchestra
Giancarlo Guerrero, regência

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Mark-Anthony TURNAGE (1960)

Frieze, para orquestra (2012)

01 – I. Hushed and Expansive
02 – II. With Veiled Menace
03 – III.♩= 60
04 – IV.♩= 120

New York Philharmonic
Alan Gilbert,
regência

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Vassily

 

2 comments / Add your comment below

  1. Bom dia.
    Os links que estão em “Christopher ROUSE (1949-2019)” e “Mark-Anthony TURNAGE (1960)” estão levando para os mesmos arquivos. Caso seja um engano, seria possível corrigir?
    Grato.

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