Josquin Desprez (1450-1521): Missa Pange Lingua – Ensemble Clément Janequin & Ensemble Organum – Marcel Pérès

Josquin Desprez

Missa Pange Lingua

Parece incrível, mas houve um tempo no qual as informações eram difíceis de serem obtidas. Consultávamos livros, tentávamos emprestar de algum amigo um ou outro disco ou gravar uma fita cassete para conhecer uma peça de música da qual havíamos ouvido falar. Lembro-me de estar fazendo hora em uma loja de discos que frequentava e ver surgir um mortal qualquer perguntando sobre gravações de música de câmera de Gabriel Fauré. Hoje uma simples busca na internet ou nas páginas do PQP Bach e você receberá uma inundação de possibilidades.

Demorei anos para notar que há um violino de perfil nesta capa…

Uma das minhas fontes de busca de informações era o livrinho Uma Nova História da Música, do Otto Maria Carpeaux. No final do livro há uma lista de obras consideradas por ele fundamentais na evolução da Música Ocidental, colocadas em ordem cronológica. Você poderá ver essa lista aqui. Eu adorava percorrer a lista buscando as peças que já conhecia e sonhando com aquelas que ainda não ouvira.

A postagem de hoje traz a segunda peça da lista do Carpeaux – a Missa Pange Lingua, de Josquin Desprez. Pode ser Des Près ou des Prez. De qualquer forma, Josquin é suficiente.

A missa é de 1516, aproximadamente, e é a peça mais antiga que tenho em minha coleção de música. Josquin é da escola franco-flamenga e foi um compositor importante. Era admirado por Martinho Lutero, que disse sobre ele: “É um mestre das notas, que obedecem aos seus desejos, enquanto outros compositores fazem o que as notas desejam”.

Foi um dos primeiros mestres do estilo de música vocal polifônica da Renascença, que estava surgindo durante seu período de vida. A música que prevalecia antes era o Canto Gregoriano, onde todos cantavam juntos a melodia. A transição deste tipo de música para a música polifônica ocorreu ao longo de séculos e os dois estilos conviveram lado a lado por bom tempo. Josquin certamente tinha conhecimento dos dois estilos.

O nome Missa Pange Lingua se deve ao fato de Josquin ter usado em toda a sua composição a melodia de um hino conhecido, chamado Pange Lingua. O hino é em louvor ao Corpus Christi e a missa claramente foi feita para a Festa de Corpus Christi. Em 1345 uma hóstia foi miraculosamente resgatada intacta de um fogo no qual havia caído. Este fato ficou conhecido como o Milagre de Amsterdam. A devoção que havia ao Santo Sacramento nesta época ajudou a tornar a missa muito conhecida em toda a Europa. Uma outra gravação da Missa Pange Lingua pode ser obtida aqui (Viva, Avicenna!).

Usar uma melodia, mesmo que de obra profana, para uma composição sacra, era comum. Por exemplo, uma melodia conhecida como L’homme armè foi usada por Dufay, por Ockeghem e por Josquin para a composição de famosas missas que levam este nome.

Uma palavra sobre esta específica gravação. A missa é composta do Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus e Agnus Dei. Na prática, estes movimentos eram diluídos em um contexto que incluía outros cantos, o Introito, Gradual, Aleluia, Ofertório, e o canto da comunhão. A gravação deste disco faz isto. Você notará que estes movimentos são cantados a uma só voz (plainchant). Estes movimentos não foram compostos por Josquin. A maioria são de autores anônimos. Nos movimentos da missa propriamente dita, você ouvirá a polifonia. Além disso, a última faixa do disco é o hino Pange Lingua. Há, portanto, várias possibilidades de audição. É claro que, se os artistas e produtores prepararam assim o disco, é assim que eles esperam que você o ouça. Mas, aqui está a minha sugestão: ouça, nesta ordem, as faixas 11, 2, 3, 6, 8 e 10. O hino é cantado a uma só voz e a sua melodia será usada imediatamente no Kyrie e assim por diante. Depois, faça como quiser… O contraste dos movimentos cantados a uma voz com os movimentos polifônicos é bem interessante. Aqui está a letra do hino Pange Lingua. Nesta gravação não são cantados todos os versos como está nesta letra, mas você perceberá…

Interior da Catedral de São João, em ‘s-Hertogenbosch, Holanda

Assistindo a um documentário sobre Hieronimus Bosch, pintor que morreu em 1516, ano da composição da missa, ouvi uma explicação sobre este tipo de música que tento transcrever aqui. A explicação foi dada por Stratton Bull, o diretor artístico e membro da Cappella Pratensis, conjunto que canta algumas das peças no documentário. “Se Hieronymus Bosch entrasse nesta igreja (em ‘s-Hertogen-bosch, a cidade em que viveu Bosch) em um dia qualquer da semana, ele ouviria uma grande variedade de música. Naquele tempo, a voz humana era essencial para a música devocional. Isto não quer dizer que instrumentos não estavam envolvidos. Haveria um maravilhoso órgão com um organista no prédio e há muitos registros de instrumentos tocando com as vozes. Mas as vozes são, é claro, essenciais para o tipo de música que expressa devoção a Deus. Especialmente através de textos bíblicos e outros textos religiosos. De novo, é a ideia de tomar a palavra e quando a palavra se torna importante, dar a ela uma adicional dimensão. Isto é exatamente o que cantar faz, no lugar de apenas falar. Isto dá a ela uma extra cor e quando se adiciona mais vozes, tudo torna-se mais ornado e complexo”. Josquin sabia disso como poucos.

The Haywain Triptych (1512 – 1515), H. Bosch

Josquin Desprez (1450 – 1521)

  1. Intoït
  2. Kyrie – (Josquin)
  3. Gloria – (Josquin)
  4. Graduel
  5. Alleluia
  6. Credo – (Josquin)
  7. Offertoire
  8. Sanctus – (Josquin)
  9. O Salutaris
  10. Agnus Dei – (Josquin)
  11. Hymne “Pange Lingua”

Ensemble Clément Janequin                          Ensemble Organum

Dominique Visse, contratenor                            Gérard Lesne, contratenor

Michel Laplénie, tenor                                         Josep Benet, tenor

Philippe Cantor, barítono                                     Josep Cabré, barítono

Antoine Sicot, baixo                                             François Fauché, baixo

Direção: Marcel Pérès

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FLAC | 227 MB

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MP3 | 320 KBPS | 118 MB

Otto achando muita graça de mim por eu não ter visto antes o violino, na capa do livro dele…

Não é necessário ser religioso para se sentir elevado por esta música. Espero que ouvir o disco seja uma experiência tão gratificante para você quanto tem sido para mim.

René Denon

2 comments / Add your comment below

  1. Estranho que na lista do Carpeaux não conste a Paixão segundo São Mateus do J. S. Bach, a obra mais grandiosa deste mestre e uma das maiores da história da música. Talvez por não ter contribuído para a “evolução” da música? Mas a Missa em B menor do mesmo autor, que aparece nesta lista, apresenta alguma inovação? Sempre me pareceu uma obra dentro dos cânones da música sacra.

    1. É verdade, Alexandre, nada de Paixão segundo São Mateus, nem de São João ou o Oratório de Natal. Nem mesmo os Brandenburgos. Eu acredito que essas omissões não querem dizer que essas obras não são importantes. Acredito apenas que ele queria manter a lista sob um certo tamanho editável e deixar espaço para outros compositores. Sem ainda levar em conta o fato de que esta é uma lista pessoal. Quanto a Missa em si menor, eu não acredito que ela tenha sido concebida para ser ouvida em um serviço religioso. Suas proporções são assim, inovadoras. Assim como a coleção Vespro della Beata Vergine, de Monteverdi, que está na lista, acredito que foi concebida como uma espécie de portfólio do compositor.
      Obrigado pela sua pertinente observação. Assim que estiver com o Otto, mencionarei isso e lhe pedirei mais explicações.
      Espero que isto não atrapalhe sua diversão de explorar a lista nem de ouvir a Missa do Josquin.
      Se tiver tempo, dê uma olhada no trabalho do pessoal que arrumou isto aqui:
      https://www.youtube.com/playlist?list=PLpb4Ktn7fk6YHfAum7RcrLaMDHJVJiEI0
      Abração!
      René Denon

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