Ludwig van Beethoven (1770-1827): Missa Solemnis, Op. 123

Pois bem, após várias solicitações, não apenas do Sander, mas de vários outros de nossos leitores / ouvintes, trago para os senhores a Missa Solemnis. Sempre citando Maynard Solomon, temos a seguinte descrição e detalhes da obra:

“Tal como a primeira missa de Beethoven, a Missa Solemnis, op. 123, foi escrita para uma ocasião específica: destinava-se a celebrar a investidura do arquiduque Rudolph (1788-1831) como arcebispo de Olmütz (na Morávia) em 9 de março de 1820. Rudolph, filho do imperador Leopold II e irmão do imperador Franz era o mais importante dos mecenas de Beethoven desde 1809 em diante, e o beneficiário de nada menos que 15 dedicatórias, incluíndo as dos Concertos para Piano nº 4 e 5, o Trio, op 97 (Arquiduque), as Sonatas opp. 106 e 111, e a Grosse Fugue, op. 133.

(…) A Missa tornou-se a paixão absorvente de Beethoven durante quatro anos, substituíndo Fidélio como a grande ‘obra problemática’ de sua carreira; Com efeito, há um sentido em que a Missa Solemnis passou a ser encarada por Beethoven como uma composição talismática, cujo valor para ele era tão grande que – como vimos antes – enveredou por uma série incomum de negociações e manipulações financeiras a respeito de sua publicação, o que lhe custou não poucas amizades e lhe granjeou a desagradável reputação de práticas comerciais desonestas.

(…) Embora possamos estar certos de que Beethoven verteu na Missa Solemnis seus mais profundos sentimentos religiosos, podemos estar certos de que não foi a adesão ao catolicismo que inspirou a obra. Conforme tem sido freqüentemente assinalado, a peça nunca esteve inteiramente à vontade na sala de concerto nem na igreja. Em várias ocasiões, Beethoven sugeriu que ela poderia ser executada como “um grande oratório” (…)

(…) Entretanto, deve-se reconhecer também o papel desempenhado pela imaginação produtiva, e, embora existam muitos ‘caminhos novos para velhas idéias’, na Missa Solemnis, sua importância histórica reside predominantemente no modo como, muito mais do que reproduzidas, nela foram remodeladas as tradições da música litúrgica. Isso foi feito praticamente pelo mesmo método que criou a grande música religiosa dos predecessores de Beethoven, de Dufay a Josquin, a Handel e Bach, ou seja, uma recusa em aceitar as formas e linguagens recebidas como modelos eternos, e uma infusão de elementos seculares derivados de estilos musicais não-litúrgicos que ampliaram as possibilidades expressivas da forma, dando origem a novos significados associacionistas que, por seu turno, se embutiram na matriz da gramática musical mais recente.” (SOLOMON, p. 406-411)

Lendo este texto, não pude deixar de concordar quando ele diz que a Missa Solemnis sente-se pouco a vontade se executada numa igreja. Ou seja, Beethoven criou uma nova música sacra que, embora imbuída de profunda religiosidade, não necessariamente pode ser considerada música sacra, nos moldes a que nos acostumamos ao ouvir dos grandes mestres do gênero, como papai Bach, ou Handel. O próprio Beethoven teria escrito que considerava a música a capella o único estilo eclesiástico verdadeiro, “talvez por não desejar que a obra servisse a sua normal função apaziguadora como uma idealização da perpetuidade e imutabilidade da crença (SOLOMON, p. 409-410).

Curiosamente, enquanto escrevo este texto, ouço uma das melhores versões da 9º sinfonia que já tive a oportunidade de ouvir, uma contribuição da Laís Vogel, que está me ajudando  entender esta análise tão pormenorizada de Solomon. Em outras palavras, antes o homem que a fé. “A religião permanece constante, só O homem é inconstante”, terie escrito Beethoven a um amigo, discutindo sobre a imortalidade.

Para concluir, basta acrescentar que Beethoven considerava essa Missa a maior obra que compusera até então. Gosto muito da conclusão de Solomon em sua análise desta obra:

“(…) E assim, o conflito em curso entre a fé e a dúvida em Beethoven é revelado na Missa Solemnis. Como Riezler sabia, no “Donna nobis pacem”, com seus sons de discórdia e guerra, e seus angustiados clamores de paz, interior e exterior, Beethoven ‘atrevera-se a permitir que a confusão do mundo exterior invadisse o domínio sagrado da música eclesiastica’. Neste sentido, a Missa Solemnis antevê as questões e dúvidas teológicas – a par da guerra travada entre ciência e religião – que dominariam o campo da batalha intelectual do século XIX.”

Ludwig van Beethoven — Missa Solene, Op. 123

1 – Kyrie 11`55
2 – Gloria 16`59
3 – Credo 17`41
4 – Sanctus 5`16
5 – Benedictus 9`22
6 – Agnus Dei 16`09

Rosa Mannion – Soprano
Birgit Remmert – Contralto
James Taylor  – Tenor
Cornelius Hauptmann – baixo
Choir de la Chapelle Royale et du Collegium Vocale
Orchestre des Champs Elysées
Phillipe Herreweghe – Director

BAIXE AQUI – DOWNLOAD HERE

O regente Herreweghe é ateu confesso, dizem
O regente Herreweghe é ateu confesso, dizem

FDP Bach (revalidado por PQP Bach, que pôs a foto acima)

32 comments / Add your comment below

  1. Eu ainda não tive a oportunidade de ouvir essa gravação(estou baixando),mas tenho certeza que deve ser de alto nível,pois Herreweghe ultimamente tem sido sempre sinal de boa qualidade.
    Abraços

  2. Prezado,
    Fiquei curioso em relação a esse trecho do seu comentário: “Curiosamente, enquanto escrevo este texto, ouço uma das melhores versões da 9º sinfonia que já tive a oportunidade de ouvir…”. Qual versão ? sei lá quantas versões tenho – mais de 15, com certeza – mas sempre estou na busca da “melhor” (rs…).
    Abraço, do
    Gustavo

  3. Gustavo,
    Você conhece a versão do Ferenc Fricsay da 9ª de Beethoven?É excelente,pra mim sem duvida é a melhor que eu já ouvi até agora.E ainda conta com o Fischer-Dieskau como solista.
    Abraços.

  4. É uma gravação de 1957 ? é que não estou com o disco aqui perto, mas a gravação da Nona que tenho com ele se não me falha a memória é de 1957, e é muito boa, sem dúvida. As melhores gravações da Nona que já ouvi são com o Furwangler, mas não obrigatoriamente a incensada gravação de 1951, no Bayreuth. Tenho algumas gravações da Nona da década de 40 com ele que são incríveis.
    Abraço,
    Gustavo

  5. Sim Gustavo,essa versão do Fricsay é do ano de 1957.Eu também tenho essa gravação do Furtwangler de 1952 com a Schwarzkopf e me lembro de ser muito boa,a de 1942 eu desconheço ,mas acredito que se tratando de Furtwangler deve ser no mínimo boa.
    Abraços

  6. É interessante como Beethoven soluciona as suas questões com o Divino, na expressão da sua religiosidade por intermédio dessa magna peça.

    A sua foi sempre uma religiosidade não-insitucionalizada ou não-formalizada. Beethoven tinha uma religiosidade que a aproximava do panteísmo.

    E é interessante notar como no Credo a palavra “católica” se perde e quase não é ouvida diante do floreio de tantas vozes ao mesmo tempo.

  7. Estou escutando esta versão, o que posso dizer é que supea Gradiner!!! Inclusive, os solistas nesta aqui são melhores!!!
    Ele levou o nome “Solemnis” bem a sério, ta bem mais lenta!

  8. Eitcha mundo pequeno… por incrível que pareça, a versão da 9ª que eu estava ouvindo era exatamente essa do Fricsay… que a nossa querida colaboradora disponibilizou para mim dias atrás.
    Vou prepará-la para os próximos dias. Como disse dia destes o mano pqp, é para se ouvir de joelhos.

  9. Ótima postagem FDP. Já estava mais que na hora dessa obra-prima aparecer no blog. Agora, quanto a discussão sobre a melhor interpretação da Nona, da Solemnis ou de qualquer outra obra, sinceramente, cheguei à conclusão de que NÃO EXISTE a gravação/interpretação perfeita. O que existem são várias interpretações, várias delas excelentes, outras medianas e outras péssimas, mas A PERFEITA não existe e nem existirá, pois cada interprete é um ser humano, e cada ser humano interpreta de um jeito ou da forma que lhe parece melhor. Podemos eleger tal ou qual como a PERFEITA, mas não passa de critério e gosto pessoais. Portanto, toda e qualquer discussão/debate sobre qual é “melhor” não passa de perda de tempo.
    Só pra constar: da Nona, aprecio as versões de Furtwängler (com a Elizabeth); Karajan (com a Janowitz e Walter Berry); uma de Otto Klemperer com a Philharmonia Orchestra e Chorus com a Eliza no meio. E outras que ouvi mas não possuo.
    Da Solemnis, tenho uma gravação em CD com Solti que me satisfaz e não penso em desfazer.

  10. Concordo plenamente com vc Sander, a arte sempre será algo subjetivo. Agora, por exemplo, estou ouvindo a missa solemnis com o Toscanini e estou estupefato.

    Abraço e muita música a todos

  11. Prezado Sander,
    Concordo com você em gênero, número e grau…rs… A “melhor” gravação de alguma obra depende, óbvio, da qualidade da interpretação, mas sobretudo do gosto do ouvinte. Tenho amigo que prefere a Nona interpretada pelo Celibidache, de uma lentidão que chega a dar sono…rs… Entretanto, tem gente que prefere o Toscanini, que de lento não tem absolutamengte nada. Mas nós, seres humanos, estamos sempre procurando a “melhor” para nós mesmos ! e nessa busca vamos conhecendo versões, aprimorando nossa visão da arte, e até mesmo modificando nosso conceito de qual é a “melhor” ! quem ganha é a música, a arte !
    Abraço, do
    Gustavo

  12. Rodrigo e Gustavo, como vcs também sabem, a Música, como a Arte em geral, depende muito de nossa visão dela, nossos critérios, valores e gostos. Mesmo as tentativas de artistas de fazerem “arte concreta e objetiva” esbarram na percepção subjetiva que ela nos proporciona. O próprio conceito de “arte concreta e objetiva” não deixa de ser subjetivo, ainda que por parte do artista. Concordo que, sempre que entramos em contato com interpretações diferentes de uma obra, seja musical, literária, entre outras, nos enriquece na medida que não só entramos em contato com visões diferentes daquela obra, que até então desconheciámos, como passamos a entender e apreciar aspectos/elementos que não havíamos percebido antes. E sempre que possível, no que concerne à música e literatura, procuro “comparar” versões diferentes de uma obra e, assim, não só aumentar meu cabedal de conhecimento geral como encontrar aquela(s) interpretação(ões)que tem mais afinidade com minha concepção/sensibilidade.

  13. Engraçado, os comentários sobre esta postagem ficaram focados sobre a 9º do Fricsay… cujo nome sequer cheguei a mencionar no texto. Apenas falei que estava ouvindo uma das melhores versões que já tinha ouvido…
    Sander, você tem toda a razão sobre esta questão de melhor gravação, interpretação, etc. É pessoal. Por exemplo, acabo de conseguir aquela que considero a melhor gravação do Concerto para piano º 2 de Brahms, com o Kovacevich. A opção de fraseado que o solista utiliza em determinada passagem do primeiro movimento foi a que mais me agradou, e além disso, foi a única gravação que tive durante muitos anos. Claro que, depois de ouvir esta versão ums 500 vezes, outra opção pode perfeitamente não me agradar, pois me acostumei com a ela. Ou seja, o meu ouvido, o meu cérebro, sei lá, assimilou de certa forma aquela passagem tocada daquela forma que acabo não aceitando outra “visão” dela, e isso com instrumentistas do porte de Brendel, Pollini, Freire, Arrau, Zimerman, entre outros. Curioso isso, não acham? Claro que sei que esta versão para outra pessoa pode parecer inferior, muito rápida, a solução encontrada pelo solista para aquela mesma passagem não será do agrado, enfim, diversos critérios um tanto quanto subjetivos, que dependem de cada um.

  14. Particularmente, a busca pela nona ideal foi um suplício para mim. Detesto a maneira excessivamente lenta como alguns regentes a tem tratado. Essa mania começou ainda no século XIX, alguns anos após a morte de Beethoven, no apogeu do período romântico. Aliás, qualquer composição passou a ser executada assim, beeeeeeeeeeem lenta. Essa tendência permaneceu na virada para o século XX.
    Felizmente alguns intérpretes, de fato conhecedores do estilo da época, bem como da personalidade do compositor Beethoven, buscaram algo mais próximo da real intenção do mestre. Cito como exemplo o pianista Backhaus e o regente Toscanini.
    Por outro lado, Claudio Arrau continuava a tocar em insuportável lentidão, assim como (podem me chamar de qualquer coisa) Furtwangler. Fazem me lembrar uma viagem de ré numa mula cega.
    Tem muita gente que venera estes dois, ou melhor, esse estilo de execução. Eu pessoalmente não suporto, porque afeta sensivelmente a força expressiva da obra. Mas gosto é gosto e não vale a pena discutir esse tipo de coisa.
    Conheço muitas interpretações da Sinfonia Nº 9. A de Toscanini é boa, mas se trata de uma velharia, a qualidade da gravação é precária. A única versão que realmente me apaixonou, aquela que não deixaria Beethoven envergonhado caso ele se levantasse da catacumba é a de ERICH LEINSDORF, regendo a BOSTON SYMPHONY. Interessante que nunca vi ninguém comentar, num blog de língua portuguesa, essa interpretação. A gravação é de abril de 1969. Os cantores solistas são JANE MARSCH, JOSEPHINE VEASEY, PLACIDO DOMINGO e SHERRILL MILNES. Se vocês confiarem em mim eu digo que vale muito a pena.
    OBS: Esse blog é fantástico. Estava louco pelos trios do tio Beto com o Beaux Arts. Esse foi o meu primeiro post!

  15. Laís, o fato de determinada gravação fazer parte da coleção “the Originals”, ou da “the greatest recordings of century” da EMI, ou “Legendary Recordings” da Decca, NÃO significa necessariamente que estamos diante da melhor gravação/interpretação. Muitas de fato são, como a Nona do Frincsay, e o Concerto Triplo de Beethoven e o Duplo de Brahms com Oistrack, Richter e Rostropovich. Só que tem muita jogada de marketing aí. As gravadoras usam esses selos de coleções para vender gravações medianas, e mesmo ruins, como se fossem “absolutas”. Por exemplo, pela coleção “The Originals”, tenho os concertos para oboé, clarineta e flauta de Mozart na interpretação de K.Bohm e a Filarmonica de Viena que soam pesadas, não são joviais, não combinando o domínio da técnica com a agradavel “frivolidade” que são as marcas desses concertos de Mozart. Bohm fez uma leitura sisuda que chega a estragar essas obras em muitas partes. E este mesmo registro é colocado em uma coleção que deveria primar por aqueles mais referenciais, que mais mantêm o espírito da obra de determinado autor.
    Por essa (e outras que ouvi)não levo (muito) em conta se o registro foi escolhido para integrar a coleção “X” ou “Y”, pois muitos não só não me satisfazem como chegam a ir contra a idéia/sentimento da obra.
    Sem falar que colocam 2 ou mais na mesma coleção, o que, ao meu ver, é estranho, pois a coleção deveria ter UMA gravação referencial de cada obra de um autor. Como exemplo, a Nona de Beethoven está disponível na “Originals” nos registros de Fricsay e de Karajan (a versão de 1960). E será que não há outra(s)?
    Isso só comprova que: 1. não existe registro absoluto de uma obra, mas vários igualmente valiosos; 2. As gravadoras, DG, EMI, Decca, Phillips etc., querem mesmo é lucrar usando selos que atestariam o carater “absoluto” de uma gravação.

  16. Aliás, o que escrevi e entendo por “refencial” assim como as gravações citadas, podem valer ou não para muitos. Enfim, tudo subjetivo.
    E FDP, realmente, depois de muito ouvir determinada gravação e/ou aquela que mais gostamos, acabamos por estranhar outras, a ponto de repeli-las. Isso tb já aconteceu, e muito, comigo. É que nossos cérebros registram determinada interpretação como padrão e daí, se outras se encaixarem no “padrão”, aprovamos, do contrário reprovamos.

  17. Vamos todos atrás desse versão da Nona, com o ERICH LEINSDORF, regendo a BOSTON SYMPHONY.
    Putz, mais uma puta (desculpem a expressão…) curiosidade !
    Valeu, Ivan !
    Abraços, do
    Gustavo

  18. Ola Sander!

    Concordo contigo. Quando mencionei a coleção “the originals” em nenhum momento quis assegurar que se trata da melhor gravação. Não penso que pelo fato de estar incluída na coleção referida, nao existam outras gravações do mesmo nível.

    Contudo, nao posso negar que, para mim, tudo aquilo que já ouvi da “The Originals”, me soou absolutamente fantástico, e isso ocorreu com outros membros do blog. Então apenas citei a coleção como uma indicação de boa qualidade, sem necessariamente querer fechar a questão a respeito da Nona Sinfonia. Até porque, como você bem mesmo disse, tem muita coisa que é por demais subjetiva.

    Considero, pessoalmente, a “The originals” algo de bastante bom gosto. Nao sinto a mesma qualidade com as gravações da “The greatest…” da EMI, por exemplo, a despeito de haver também nessa coleção muita coisa boa.

    Mas voce tem razão em muito do que escreveu, e eu nunca me oporia a esses pensamentos.

    Agora, devo dizer que a Nona com Fricsay, de todas as que eu ouvi, sem duvida nenhuma ou qualquer hesitação, é, de longe a melhor gravação (que eu ouvi).

    Já ouvi a Nona com Furtwangler, Abbado, Bohm, Karajan, Toscanini, Bernstein, e mais um punhado de maestros. Nunca encontrei tamanho equilibrio nos andamentos, em termos de tempo, no que diz respeito a expressividade e clareza do contraponto, sem falar na estupenda qualidade dos solistas né?

    Só pelo fato de ter na gravação o Fischer-Dieskau, o maior barítono do seculo XX, vale a pena ser ouvida.

  19. Lais,
    concordo em absoluto.

    Em dois pontos introdutórios: 1)não sou um conhecedor de Música, no termo académico. 2) Beethoven é o meu favorito, numa questão de percepção minha sobre a sua ideologia. Ultrapassando tudo isso, na minha dezena e meia de gravações da Nona, ao ouvir a gravação da Nona dirigida por Fricsay, senti algo único, diferente de todas as outras. A palavra Equilíbrio destaca-se. Entre os tempos e o fraseamento, entre a tensão e o desvario que tem de ser mostrado em certas partes.

    Muito me agrada ver aqui partilhada a opinião que deixei em comentário quando foi deixada a gravação de Toscanini, por aqui: http://pqpbach.opensadorselvagem.org/ludwig-van-beethoven-sinfonia-n-9-in-d-menor-op-125-toscanini/#comments

    Curiosamente, ofereci a minha gravação há poucos dias. Hei-de deixar crescer esta fome de arrebatamento, do primeiro ao último compasso, até adquirir de novo o CD.

  20. Loucuras da vida me permitiram terminar de ouvir a Solemnis de Beethoven só agora.

    Estou impressionado com Herreweghe! Sabia de sua reputação, mas apenas “sabia”. Tenho dois ou três discos dele, mas este me impressionou. E tive uma impressão, no mínimo, curiosa.

    Primeiro, a gravação: está tudo muito bom. Eu sei que temos de ter uma percepção geral da coisa toda, mas gosto de ouvir tudo em detalhes. Os violinos bem definidos, os cellos às vezes “melosos”, no meio da massa orquestral, outras vezes bem “ríspidos”, marcados. Dá pra ouvir tudo na orquestra! E, mesmo tendo Georg Solti como um dos maestros que mais admiro, aqui Herreweghe ganha dele. A Filarmônica de Berlin sob Solti tem um “sonzão” bem difuso, digamos. Fica difícil de entender às vezes. A impressão com Solti às vezes é que algo está lá, mas não sei exatamente o quê. Mas quem sou eu pra criticar esse fantástico húngaro! É apenas uma impressão pessoal. Viva Solti também! E como!!! Mas Herreweghe me permite ouvir tudo e gosto de ter o senso de que tudo está se encaixando muito bem.

    O coral está excelente! Aí Herreweghe tem a oportunidade de usar toda sua bagagem de música vocal a serviço da Solemnis! Detalhes de expressão com dezenas de vozes juntas várias vezes me deram o que Niemeyer chama de “assombro”, ou seja, aquela sensação prazerosa de contemplação inesperada. Isso acontece várias vezes nessa gravação. O fim de uma frase aqui, o contraste de um súbito piano ali, aquele crescendo acolá. Perfeito!

    Os solistas são primorosos. Expressão perfeita e, conforme meu gosto particular, vibrato bem equilibrado, sem exageros. (Infelizmente, um ponto fraco que eu acho na gravação do Solti e de outros.)

    Os metais, pra mim, normalmente agridem nas gravações por aí. Não é todo mundo que consegue equilíbrio com esse naipe de instrumentos. Aqui, Herreweghe “educa” essa seção da orquestra. Os metais estão presentes, incisivos, marcantes, mas também AGRADÁVEIS, equilibrados. Espetacular!

    As madeiras estão bem presentes. Herreweghe respeita os flautistas e às vezes “cala” o resto da orquestra como se dissesse “Agora é a vez das flautas; o restante dos senhores, por gentileza, respeitem.” E o que falar do “Benedictus”, quando essas flautas escortam o violino dos céus à terra? Impressionante esse movimento! Uma vez li que Beethoven tinha a idéia de que as duas flautas nessa passagem eram anjos e que o violino era o Espírito Santo, enquanto os solistas cantavam.

    Quanto aos andamentos, em nenhum momento sequer notei nada tipo “está rápido”, “está lento” (como alguns colegas mencionaram nos comentários acima). Gostaria de interpretar isso como “Está tudo muito equilibrado.” De fato, se não notei nada, é porque está tudo a contento em termos de andamento. O diferencial é que é uma interpretação empolgante sem eu ter percebido estar rápida, ou lenta.

    Finalmente, tive uma impressão da interpretação de Herreweghe que não sei se vão me entender bem (espero que sim). Eu amo barroco… o barrocão meio “arrastado”… aquela sonoridade que Gardiner, Kuijken, Harnoncourt, Suzuki conseguem tirar da orquestra. Não sei se estou ficando doido, mas tem algo disso nessa Solemnis pelo Herreweghe. As arcadas das cordas meio barrocão em pleno período maduro de Beethoven! Cara, que loucura! Não sei se estou falando besteira, mas o fato é que ficou tão interessante! Tenho impressão que algo do tipo também acontece na gravação de Gardiner. Super!

    Obrigado, filho de Bach, por me permitir ter essa gravação. Acertou em cheio!

  21. Eu tinha a versão dir. pelo M. Gielen. E gostava muito. Até conhecer esta do Herreweghe. Aliás, sempre que vejo este nome trato de baixar e ouvir, pq sei que a interpretação será de qualidade.

    Não sou de comentar muito, mas sempre estou por aqui. E não posso deixar de parabenizá-los pelo trabalho fantástico que fazem aqui. Pois, além de facilitar o acesso à beleza, vocês ainda tecem comentários sempre muito construtivos. Parabéns!

  22. Que prolífica postagem! À procura da Missa deparo-me com uma discussão a que sinto-me incumbido em contribuir. Ora pois, a riqueza interpretativa que uma obra suporta é um testemunho acerca de sua própria grandeza, é algo que comporta a extensão comunicativa inerente à mesma, em outras palavras, a busca de uma perfeição interpretativa não testemunhada pelo veículo autoral da obra – o artista – é parte integrante da própria obra. Toda arte é sua(s) interpretação(ões), ou melhor, a interpretação é uma etapa obrigatória e interna ao completo fazimento artístico. Isto é maravilhoso, pois uma composição nunca encerra-se, mas, pelo contrário, multiplica-se incessantemente a partir de sua força produtiva desencadeadora, falante aos instintos pela cultura.

  23. Bem colocado, Arteiro. Toda arte é interpretação. Podemos odiar ou realmente não entender uma obra de arte contemporânea, mas sempre vai ter alguém que conseguirá enxergar além daquilo que conseguimos ver.
    Com relação à Nona de Beethoven em questão, passados dois anos e alguns meses da postagem, a versão do Fricsay ainda é a que mais me agradou com suas escolhas de tempos, etc. Também tenho diversas versões, e para quem tem acesso também sugiro um vídeo do Sinopoli regendo a Nona, com a Orquestra de Dresden, se não me engano, e gravada no Japão, com solista e coro japoneses. Deve ter no emule, ou em torrent. A gravação do vídeo foi realizada pouos meses antes da morte do regente, e é de uma profundidade e coerência impressionantes. Desconheço que foi lançado em cd.
    Cm relação á Missa Solemnis esta versão do Herreweghe realmente é excelente, apesar de ainda ter o Gardiner entre os meus favoritos, além do Klemperer que tem simplesmente a Elizabeth Schwarzkopff e o Fischer-Dieskau. Altamente recomendada.

  24. Se Beethoven tivesse composto somente a Missa Solemnis e mais nenhuma outra obra, já poderia ser considerado um dos mais altos gênios da humanidade. Junto com a 9ª Sinfonia, é minha obra preferida dele. E, para mim, a mais alta das missas, superior até mesmo à Grande Missa de Bach, na minha opinião.

    Mas, no geral, não gosto muito das interpretações do Herreweghe, apesar de sua indiscutível qualidade como regente, eu sinto que ele suaviza demais as possibilidades de expressão. Sou adepto das orquestras mais potentes, das vozes mais arrebatadas, mais viscerais. Questão de gosto. Prefiro a interpretação do Bernstein. E uma das gravações da Solemnis que mais admiro, entre as que conheço, é a do Solti.

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