.: interlúdio: Julian e John Leslie :.

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Não apenas por todas as razões musicais imagináveis, o jazz me fascina também pelas histórias, lendas, imaginário, esquinas. O componente humano desgarradamente exposto, a atmosfera dos clubs de jazz de meio século atrás; é possível ouvir ignorando o contexto, mas sem dúvida a experiência fica muito mais prazerosa e completa quando se descobrem pedacinhos dessa grande narrativa. Estes aspectos dão uma sensação de infinitude que a instituição Jazz me proporciona: não é apenas um universo, são diversos deles — e lembro de como me parecia impossível conhecer o jazz, abarcá-lo e dar sentido, quando fui provocado, há tantos anos, por um bop furioso numa (vejam só) rádio FM local. Desde então venho lentamente conhecendo-o melhor, como se cortejavam moças nos namoros antigos. Talvez esteja começando a enxergar a cerca da casa dela.

Digressão à parte, aproveitava eu o recesso de fim de ano para dar uma pesquisada sobre Wes Montgomery, que tanto admiro, quando dou de cara com uma gema completamente inesperada. Como se Toquinho tivesse feito um show acústico com Ozzy Osbourne ou Bruno largasse Marrone para fazer dupla com Madonna, descubro uma colaboração entre Wes e Cannonball Adderley!

Pequena pausa para assentar minha surpresa.


O jazz é tão generoso que me dá vários herois; fico em estado de fã com frequencia. Respeito longamente Montgomery pelo que produziu com sua guitarra, por tê-la colocado tão unica e apropriadamente no jazz, e para sempre. E Cannonball me conquistou com seu carisma inigualável — primeiro tocando, e depois ao ouvi-lo conversando com a plateia, certificando-me do grande bonachão que já transparecia ao sax. Sabia que fora Cannonball quem proporcionou uma carreira a Wes, indicando-o após um show para (o lendário produtor) Orrin Keepnews, da Riverside, mas não havia imaginado-os tocando juntos; Wes sempre havia preferido pequenas formações, e como band leader (razão que fê-lo recusar um posto na banda de Coltrane no começo dos ’60). Apesar das colaborações — Milt Jackson, Jimmy Smith, Wynton Kelly Trio — sempre esteve um pouco à parte do mundo do bebop movido a sopro.

Donde descobrir Cannonball Adderley and the Poll-Winners, de 1960, me deixou feliz como criança que ganhou gibi novo.

Os “Poll-Winners” do título referem-se às votações para melhores músicos de jazz das revistas da época — Down Beat, Metronome, Playboy. Ray Brown vencia quase sempre; além da classe, tinha uma respeitada carreira de já quinze anos, desde a banda de Dizzy Gillespie. Cannonball havia arrematado o prêmio de melhor sax alto com Somethin’ Else, e Wes fora a revelação/promessa de 1959. Apesar disso, foi um encontro quase fortuito entre os três em San Francisco, na primavera de 1960, que motivou Cannonball a reuní-los para duas sessões de gravações, 21/05 e 05/06 daquele ano.

For in view of the emphasis to be placed on guitar and bass, Adderley had felt that instrument would most suitably round out the unusual musical coloration. Then Vic sat down at the piano to run through a new tune of his, The Chant – and all of us were immediately aware that a whole lot of hip people on the West Coast had apparently been asleep for the past couple of years. Certainly there had been no words of warning to lead any of us to expect what we were hearing : a genuinely soulful (in the very best sense of that hard-worked word), and immensely swinging, playing and composing talent. Orrin Keepnews/liner notes

O disco é brilhante, como se pode imaginar — mas vou poupar adjetivos, já que minha evidente comoção pode atrapalhar uma leitura mais técnica (que absolutamente não me interessa neste caso). Basta dizer o que lhe saltará aos ouvidos: os solos de vibrafone em “Lolita”, de sax em “Azule Serape” e “The Chant”, de guitarra em “Never Will I Marry” e “Au Privave”, e todos em “Yours is My Heart Alone”. Além disso, o trabalho gentil que Wes executa ao fundo, como base quieta ao lado do piano ou contrapondo o vibrafone, é um deleite (que se presta muito bem aos fones e à atenção, inclusive). Fico imaginando a química entre Cannonball e Wes no estúdio; ambos com histórias parecidas, de grandes esforços para chegar até ali, provindos de famílias de músicos. Evidentemente fui atrás de mais informações e, para minha felicidade completa, descobri que “The Poll-Winners” foi a segunda, e última, colaboração entre eles. A segunda!

(Fico pensando que ouvinte eu seria sem a internet.)


Encontrar a primeira foi até mais fácil, e em melhor qualidade. Foi em 1959, num álbum fronteado por um nome que não conhecia: Jon Hendricks. Logo depois fiquei sabendo que foi precursor do scat singing, recebeu a alcunha de “Poet Laureate of Jazz” e a Time chamou-o de “James Joyce of Jive” — porque foi também um pioneiro do vocalese (a substituição de um instrumento solo pela voz, mas com letras “verdadeiras”, não apenas as sílabas do scat). O time que Hendricks reuniu para seu primeiro disco solo era uma grande festa de família: Monk, Buddy e John Leslie “Wes” Montgomery, Nat e Julian “Cannonball” Adderley; além de Pony Poindexter (saxofonista com grande folha de serviços prestados, incluindo Bird e Lionel Hampton, e depois Eric Dolphy) e outros músicos.

Sem saber bem o que esperar, fui ao disco sem expectativas; a princípio não gosto de voz no jazz (embora sempre haja Louis, Ella, Billie, Sarah. Ainda bem!). A descrição de Hendricks no parágrafo acima dá bem o serviço: por cima de faixas velozes, muito animadas e abraçadas ao swing, Jon canta — seja à crooner mesmo, ou solando em scat. E como canta! E ainda escreve bem! Impossível não sorrir com as letras de “Feed Me” ou “Social Call”. E para além da performance de Hendricks, ouve-se muito bem Wes e Buddy; Cannonball, além de dobrar firmemente algumas linhas com Nat, tem seu momento na faixa-título, improvisada na hora da gravação. (Apesar de não ganhar crédito, à época; afinal já tinha contrato com a Riverside. Foi para as liner notes como “Blockbuster and his Brother”. Ou como escreveu o próprio Hendricks: “…And we got two more brothers who toil in other vineyards and who cannot be accurately mentioned, but they are “Blockbuster” and his brother and your ears will tell you who they are. They sure did warm up the studio with their alto and cornet. (You don’t know yet?)”)

Dois discos que vão além deles mesmos; são cacos das infindáveis histórias do jazz. Como poucos outros, estou ouvindo-os babando. (Querem o quê de um cachorro?)


Cannonball Adderley and the Poll-Winners /1960 (192)
download – 60MB

Cannonball Adderley, alto sax; Wes Montgomery, guitar; Victor Feldman, piano/vibes; Ray Brown, bass; Louis Hayes, drums. Produzido por Orrin Keepnews para a Riverside

01 The Chant (Feldman)
02 Lolita (Harris)
03 Azule Serape (Feldman)
04 Au Privave (Parker)
05 Yours Is My Heart Alone (Lehar)
06 Never Will I Marry (Loesser)
07 Au Privave [alt take]


John Hendricks – A Good Git-Together /1959 (V0)
download – 55MB

Jon Hendricks, vocals; Norwood “Pony” Poindexter, alto sax; Guildo Mahones, piano; Wes Montgomery, guitar; Monk Montgomery, electric bass; Buddy Montgomery, vibes; Ike Issac, bass; Walter Bolden, drums; Jimmy Wormsworth, drums; Cannonball Adderley (credited as “Blockbuster”), alto sax; Nat Adderley, cornet. Produzido por Richard Bock para a Pacific Jazz

01 Everything Started on the House of the Lord (Hendricks)
02 Music in the Air (Gryce)
03 Feed Me (Hendricks)
04 I’ll Die Happy (Hendricks)
05 Pretty Strange (Weston)
06 The Shouter (Mahones)
07 Minor Catastrophe (Hendricks)
08 Social Call (Gryce)
09 Out Of the Past (Golson)
10 A Good Git-Together (Hendricks)
11 I’m Gonna Shout (Everything Started on the House of the Lord) (Hendricks)

cannonballBoa audição!
Blue Dog

15 comments / Add your comment below

  1. Como não baixar estes cds depois de um texto desses, bluedog? Sempre fui fã de Cannonball Adderley, e como guitarrista frustrado, mais fã ainda do Wes.. nunca imaginei estes dois tocando juntos.. estou baixando ansioso esse material.

  2. Primeiramente, gostaria de parabenizar o blog por excelentes postagens. Eu tenho um filho que estuda música. Ele tem 11 anos. Ele adora o Violoncelo(é o instrumento que ele aprende no Conservatório Pernambucano de Música). Recentemente, meu filho estava muito triste. Ele aprendeu a usar a internet recentemente, mas já sabe muita coisa. Mais coisa que eu! Eu esperaria tudo de uma criança de 11 anos, mas sinceramente, menos um gosto musical tão apurado. Enquanto as crianças da idade dele assistem “Malhação”, ele escuta Anner Bylsma, que por sinal, eu só conheço por causa dele. Meu filho é apenas uma criança, mas já é um rapazinho bem maduro. Me orgulho dele. Mas vamos ao motivo da tristeza do meu filho: Ele conseguiu postar um comentario no blog que ele mais adora, e foi respondido. Pela euforia da idade, ele agradeceu como uma criança a pessoa que respondeu seu post. Ele ficou muito feliz, inclusive me disse que tinha sido respondido e respondeu de volta agradecendo. Um dia depois, ele estava cabisbaixo e eu perguntei o motivo. Ele me disse que responderam a postagem dele falando que ele era imaturo, até mesmo medíocre. Na hora eu pensei: poxa,eu tenho uma parcela grande de culpa nisso. Preciso conscientizar meu filho que na internet as pessoas falam o que querem, e nem conhecem que está do outro lado da rede. Primeiramente, peço desculpas porque preciso vigiar com quem meu filho fala,porque ainda bem que foi com vocês, poderia ter sido pior e ele estivesse se relacionando com pessoas com muita má intenção. Só queria pedir um favor: Por favor, ao responderem algum post, por favor, levem em consideração(pelo teor de cada postagem) que do outro lado da rede podem existir crianças. E elas se machucam facilmente. Lógicamente,como eu já disse, tive minha parcela de culpa. Mas muito obrigado pela atenção. Sei que responder posts de inúmeras pessoas não é fácil. Até porque, vocês devem ler cada coisa…
    Bom início de ano para todos.

    1. Olha, eu não tenho nada a ver com a história, mas se for a postagem que eu tô pensando (a do Purcell), ninguém o chamou de mediocre ou imaturo, mas sim ao cidadão que saiu do blog e deletou as postagens que tinha feito, como comentado na postagem… Parece ter sido só um mal-entendido, e desculpem a minha intromissão.

  3. É verdade… eu lembro desse post… e concordo com o Lucas, creio que tudo foi um mal entendido. Até porque, faz tempo que eu conheço o blog e nunca vi ninguém ser tratado mal, pelo contrário, tudo sempre corre tranquilamente por aqui. Um abraço (espero ter ajudado também e perdoem a intromissão.
    Abraço!

  4. Muito boa a postagem. Eu costumo dizer que não suporto Jazz, mas na verdade apenas sou frescurento, e gosto de raros discos de Jazz, e desse do Cannonball gostei muito.
    Só uma observação. Quando eu estava ouvindo no celular, apareceu como capa uma foto dos Jonas Brothers. Imagine você num ônibus, e ao seu lado tem um cara de quase dois metros e cento e vinte quilos, com cara de mal, cabelo comprido e assanhado, barba por fazer; ele está com fones do ouvido; você fica curioso pra saber o que ele está ouvindo, em dúvida entre Megadeath, Marilyn Manson e Metallica; quando ele mexe no celular, supresa!!! o Khal Drogo de Rio Doce ouvindo Jonas Brothes. Pois é, deve ter sido isso que a menina que estava ao meu lado naquele dia pensou.

  5. Sr., nada tenho contra o jazz, nem contra música nenhuma. Aos 20 anos tive um amigo com uma coleção generosa de jazzistas, ouvi-los era satisfação. Durante muito tempo ouvi jazz mas hoje não tenho tanta satisfação assim, dediquei-me ao choro, Ernesto Nazaré, Pixinguinha, Jacob, Chiquinha Gonzaga, Anacleto de Medeiros,…. Nossa! Quantas melodias, confesso, sinto-me melhor ouvindo nossos grandes mestres.
    https://www.youtube.com/watch?v=jc6hZhISyi4&hd=1#aid=P-eHPEntcys
    Faça um teste, ouça que maravilha. O jazz é mais harmonia, improvisação, e a melodia passa despercebida. Perdoe-me a intromissão.Abs

  6. Obrigado pelo jazz. Desde minha adolescência, em Santarém, interior do Pará, costumava sentar na porta de casa (interiorzão da Amazônia, aquela tranquilidade, só a lua e os barulhos da natureza) munido do meu rádio de 9 faixas `Philco e sintonizar o programa Jazz USA diretamente da Voice of America, com o apresentador Willys Cannover (é assim que se escreve?). Naquela recepção cheia de chiados eu viajava pela madrugada. Minha família é de músicos. Sou da terceira geração (Wilson Fonseca, é meu pai. Está aí na tua relação). Tocava sax e trompete em banda de música da prefeitura e em conjuntos de dança. Anos 60 inesquecíveis. Jazz me lembra essa época gravada indelevelmente na memória musical e afetiva. Obrigado.

  7. O PQP é tão grandioso nos comentários quanto nas postagens. Hoje mais tranquilo, devo dizer solenemente, bravo! Vou baixar os discos, o jazz é uma música de grande valor harmônico e de improvisos. Não estou me desdizendo, quero dizer que meu coração está mais aberto ao prazer musical. Parabéns.

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