Dmitri Shostakovich (1906-1975): Sinfonia Nº 7, Op.60, “Leningrado”

Tremenda gravação!

Eram outros tempos, muito diferentes. Dias antes, em Leningrado, foram planejados ataques aos alemães a fim de que eles não incomodassem durante a execução da obra através de um ajuntamento de músicos famintos e estropiados. E, assim, a Sinfonia Nº 7 de Shostakovich foi estreada em Leningrado no dia 27 de dezembro de 1941, tornando-se instantaneamente popular na URSS e no Ocidente como um símbolo da resistência ao totalitarismo e militarismo nazista.

No dia 19 de julho de 1942, a NBC transmitiu a Sétima para todos os Estados Unidos na mais espetacular iniciativa da era do rádio até então — anunciada inclusive na capa da revista Time, que ostentava (abaixo) a figura do compositor como bombeiro, uma de suas atribuições na cidade sitiada há meses.

Capa de revista Time. O mundo curvou-se ante a Sétima Sinfonia de Shostakovich.
Capa de revista Time. O mundo curvou-se ante a Sétima Sinfonia de Shostakovich.

A maioria dos compositores de peso estavam nos EUA — Schoenberg, Bartók, Stravinsky, Eisler, Hindemith, Rachmaninov — e grudaram no rádio. E tiveram como reação o que pareceu um enorme ataque de inveja e ressentimento. A mais popular das sinfonias era horrível. Schoenberg e Hindemith esbravejaram publicamente. Bartók ficou pasmo diante da ruindade do primeiro movimento, mas confidenciou apenas a amigos. O grande problema era, obviamente, o primeiro movimento. Após uma introdução pastoral que descreve as maravilhas do tempo pré-guerra com Stalin, há o tema da invasão, claramente inspirado no Bolero de Ravel.

Concordo que é tudo muito simples e anormal para Shostakovich, mas, anos depois, terminada a guerra e acalmados os ânimos, os críticos começaram a ver o que sempre esteve sob seus tolos narizes. A descrição musical da URSS trabalhadora, feliz, tranquila e pastoral durante o regime de Stalin é um evidente e claríssimo sarcasmo. Fato conhecido de todos — inclusive dos envolvidos — é que Shosta detestava Stalin e jamais daria uma chance a ele. Além do mais, era um homem talentoso, inteligente, complexo e muito, mas muito corajoso. Ora, a ironia forma-se no ato de dizer-se as coisas exatamente ao contrário e com certo exagero. Como é que ninguém deu-se conta de que aquele açúcar todo tinha o endereço de Stalin? Já o restante da música é extremamente dramático e bom.

A gravação de Mariss Jansons e da RCO é uma coisa de louco.

Dmitri Shostakovich (1906-1975)
Symphony No. 7 in C major, op. 60 “Leningrad”

1. Shostakovich – Symphony 7 in C major, op. 60 – Leningrad: Allegretto 27:22
2. Shostakovich – Symphony 7 in C major, op. 60 – Leningrad: Moderato (poco allegretto 11:17
3. Shostakovich – Symphony 7 in C major, op. 60 – Leningrad: Adagio 18:37
4. Shostakovich – Symphony 7 in C major, op. 60 – Leningrad: Allegro non troppo 17:11

Royal Concertgebouw Orchestra
Mariss Jansons

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Quem é míope vira bombeiro, né?
Quem é míope vira bombeiro, né?

PQP

6 comments / Add your comment below

  1. Baixando!
    Estou numa fase de vício em Shostakovich, acho incrível como a música dele é cheia de humor, nas sinfonias 9 e 15 por exemplo… Na sétima nunca tinha reparado nesse sarcasmo, mais uma vez as resenhas do PQP Bach me mostram uma obra sob um no o olhar…
    Obrigado mais uma vez!

  2. Essa sinfonia é genial. Não sei que é que esses “críticozinhos” tem que torcer o nariz até pra melhor das coisas. Acho que é só pra gente poder reclamar deles depois…

  3. Sempre admirei essa obra pelo valor histórico que ela carrega. mas considero a quarta um verdadeiro tapa na cara de Stalin.

  4. Olá! Obrigado por continuar “no ar” passados estes anos todos (Depois de tantos outros blogs de música clássica terem fechado portas)! Seria possível recuperar os links deste disco, por favor? (Li há uns dias na revista francesa “Classica” que esta seria uma das melhores gravações de 7ª de Shostakovich, só superada pela de Kondrashin, e gostaria de confirmar) Os meus antecipados agradecimentos

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