Marlos Nobre (1939) – Selección sonora

Como Marlos Nobre e Edino Krieger são os dois expoentes mais representativos da música clássica brasileira atual e como Krieger teve duas postagens contra uma de Nobre, esta dividida com Villa-Lobos, faço agora o contrabalanço, com a segunda do compositor pernambucano, mais fácil de ser achado em coletâneas do que em CDs inteiramente dedicados a ele.

Por sorte, tenho um – dos bons – que é uma coletânea de coletâneas. Explico.

Marlos Nobre ganhou em 2005 o Prêmio Tomás Luis de Victoria, uma espécie de Prêmio Príncipe de Astúrias da música clássica espanhola concedida a compositores latino-americanos e ibéricos, e teve a edição de um livro sobre sua vida e obra (El sonido del realismo mágico) bancado pela fundação que concede a láurea. O livro acompanha o presente CD, que compila gravações retiradas de outros álbuns.

Destacam-se no disco: o famoso Frevo, para piano, que tem uma transcrição para violão e depois foi transformado no quinto e último movimento do IV Ciclo Nordestino para piano. Yanomami, uma bem sucedida peça para tenor solo e coral acompanhada por somente um único violão. As Três canções negras, com letra dos poetas pernambucanos Ascenso Ferreira e Manuel Bandeira, em particular a primeira delas. E Passacaglia, a melhor obra sinfônica de Nobre depois de Convergências e antes de Kabbalah (esta não me agrada muito).

A remissão das Três canções negras à Bachianas n° 5 é explícita pela igual formação instrumental, para oito celli e soprano, e pela utilização de poemas de Bandeira – tanto que o CD original traz ambas as obras. Porém não há outros traços, fora esses. Já a Passacaglia foi ampliada um pouco e destinada a balé com o nome de Saga Marista, sob encomenda dos Irmãos Maristas pelo centenário da congregação no Brasil, em 1997, e reciclada em uma transcrição para banda sinfônica chamada Chacona amazônica – nada que supere os Desafios, que é quase a mesma coisa tendo cada instrumento da orquestra como solista.

***

Marlos Nobre – Premio Tomás Luis de Victoria 2005 – Selección sonora

Quarteto de cordas, op. 23 n° 1 (1967)
1. Variantes
2. Interlúdio
3. Postlúdio
Música Nova String Quartet

Desafio VII para piano e orquestra de cordas, op. 31, n° 7 (1980)
4. I. Cadenza e II. Desafio
Maria Luíza Corker-Nobre, piano
Música Nova String Orchestra
Marlos Nobre, regência

5. Yanomami, para coro misto, tenor e violão, op. 47 (1980)
Choeur des XVIème de Fribourg
Olivier Rumpf, tenor
Dagoberto Linhares, violão
Jean Jacques Martin, regência

Sonante I, para marimba solo, op. 80 (1994)
6. Intrata
7. Toccata
Miguel Bernat, marimba

Três canções negras, para soprano e octeto de violoncelos, op. 88 (1999)
8. Maracatu
9. Cantilena
10. Candomblé
Cello Octeto Conjunto Ibérico
Pilar Jurado, soprano
Elias Arizcúren, regência

11. Tango, para piano, op. 61 (1984)
12. Frevo, para piano, op. 43 (1977)
Marlos Nobre, piano

13. Passacaglia, para orquestra, op. 84 (1997)
Não constam regente e orquestra

BAIXE AQUI

CVL

32 comments / Add your comment below

  1. Gosto demais de Marlos Nobre e este CD certamente será ouvido com enorme atenção.

    Faz uns dez anos, ele andou sendo criticado por posições políticas, mas o incrível é que não lembro do que era e nem encontro nada a respeito na rede. É absolutamente certo que era algo que fica muito abaixo de sua obra.

    Grande post sobre o maior de nossos compositores vivos, em minha opinião.

  2. Realmente, dentro do mainstream musical erudito, Marlos Nobre, colecionou uma série de desafetos por conta de posições políticas, mas nada que desabone sua obra e que o impeça de ser devidamente apreciado pelo público.

    Tenho uma admiração muito grande pelas obras de Edino Krieger, Ernani Aguiar, Eli-Eri Moura e Jorge Antunes, mas o maior dos compositores eruditos brasileiros vivos é Marlos Nobre. Pena que ele só agora tem sido mais executado e gravado no Brasil; a discografia dele é ampla (possuo diversos discos com ele) mas – como aconteceu com Villa-Lobos – quase toda produzida lá fora.

  3. Olá Pessoal!
    Marlos Nobre!
    Grande compositor!
    Brasileiro!
    Grande mesmo!
    O Quarteto, que da início a esta postagem, é admirável e nos deixa, ao fim, uma indagação: por que os Quartetos de Villa-Lobos não encontram intérpretes tão versáteis quanto os que compõem o “Música Nova String Quartet”?
    Ele é ótimo.
    Logo em seguida, esse ótimo Quarteto transforma-se na “Música Nova String Orchestra”, a qual nos brinda com uma interpretação excelente do Desafio Op.31 nº7, obra de 1980 muito bem concebida.
    Muito bons, tanto o String Quartet quanto a String Orchetra.

    A obra seguinte é Yanomami.
    O Yanomami é de um tipo de composição que, definitivamente, não me agrada.
    Para mim, tais obras soam mais como uma demonstração de curiosidades locais vestidas de fraque e cartola, como o exige a civilização.
    Tomando o Yanomami apenas como exemplo: é como se, em um casamento Yanomami, todo mundo (inclusive os noivos Yanomami) tivessem que se vestir de gala, com igreja florida, “buquet” de noiva e coisas assim, deixando aos índios tão somente a liberdade de pintarem os rostos.
    Pessoalmente, eu prefiro seus casamentos originais (deles; do índios é claro).
    Para mim, as obras musicais que têm um caráter imitativo, ou melhor dito, descritivo, sobre um povo ou comunidade, nunca o representam bem.
    Pior é que nunca podem representar mesmo já que não são feitas nem por nem para os representados. São feitas para que os civilizados vejam como são estranhos esses povos.
    Mas, isto nada tem a ver com a obra de Marlos. É um problema meu que envolve desde Vivaldi a Villa-Lobos e todos os que os antecederam, os sucederam e os sucederão.

    O “Sonante I” tem como solista um instrumento pouco usual. É de uma criatividade envolvente e pouco comum, se atentarmos para as possibilidades limitadas que acredita-se terem instrumentos semelhantes. No entanto, assim não é. As profusões sonoras são de inventiva impressionante. Jamais se imagina que uma obra, tendo a marimba como solista, possa causar tantos momentos de enlevo. É muito, muito bom!

    As três Canções Negras estariam a merecer solista que melhor compreendesse a alma da Africa que ali se encontra.

    Após as Canções, o próprio Marlos atua, ao piano, como solista do Tango e do Frevo.
    Conhecendo bem o Marlos, o tamanho de suas mãos e o peso de seus braços, esperava mesmo por um Frevo assim. Bem forte.

    Claro que o compositor é o Marlos e esta interpretação, ao piano, também lhe pertence.

    No entanto, como todas as interpretações não pertencem ao compositor da obra (e é mesmo ótimo que assim seja para não ficarmos ouvindo sempre a mesma coisa)eu assumo preferir um Frevo com maiores contraste, com maior diversificação de intensidades entre as síncopes e, igualmente, entre estas e os demais elementos constitutivos da estrutura da obra.
    Como a obra não é um Frevo para ser dançado e sim para ser ouvido, sinto que também deve haver, aqui e ali, um certo relaxamento, uma certa flexibilidade, talvez mesmo uma certa hesitação no tempo.

    Mas ora!!! Vejam só!!!
    E pode?
    Que camaradinha petulante!?
    Um intérprete pretendendo ensinar ao compositor como interpretar sua própria obra!?

    Não! Não pode!

    …desde que o intérprete seja livre para interpretar aquela mesma obra como, subjetivamente, ela lhe fale.

    A composição não pode ser mudada.

    Mas, “o que , quando e como” ela lhe fala fazem parte de sua interpretação e é isto que ele deve exteriorizar através de sua “performance”.
    Uma vez publicada, a composição sai do domínio criativo exclusivo do compositor.
    Passa a ser do domínio criativo dos intérpretes.
    O compositor pode ser um deles.
    Pode mesmo ser o único, caso ele vede a execução da obra a qualquer outro que não ele próprio.
    Felizmente, porém, quase nunca este será o caso.

    Claro que o intérprete não é um disco gravado.
    É um ser vivente que ri e que chora.
    Tem suas próprias emoções e vê o mundo sob uma ótica única! Intransferível!.
    Sua maneira de sentir a vida será, sempre, indelevelmente, parte de suas interpretações, não importando quais sejam as obras.
    Como suas impressões digitais …únicas! …intransferíveis!

    A Passacaglia, para orquestra, obra de 1997,encerra esta notável apresentação de um extraordinário compositor.brasileiro internacionalmente aplaudido.
    Na postagem, há uma observação de não estarem mencionados Regente e Orquestra. Pelo que se ouve, parece ser a Sinfônica do Rio de Janeiro.
    Mas pode não ser, é claro.
    Como já disse “o nosso Villa”, eu também acho que a Passacaglia não é nada que supere o Desafio e, tampouco, outras obras geniais de Marlos.
    Ouçam e aplaudam um grande compositor brasileiro que, como sempre, é mais prestigiado lá fora do que entre nós.
    Grande abraço a todos.
    Edson

    1. Mano PQP nesses dias vai conceder o título de membro honorário deste blog ao caro Edson, por conta de todas as suas contribuições como comentarista de nossos posts.

      1. Ou pedir para que ele escreva o texto (nada contra, Edson, nada contra). Afinal, ando meio sem tempo, como se nota pelas duas ultra-esclarecedoras apresentações de hoje.

        Grande Pisendel!

      1. Fala a verdade, você deu um CALA A BOCA no pobre com dose de hipocrisia, e o cara nunca postou mais aqui
        Do mesmo jeito que você me está calando me chamando de donzelo e palhaço – que baixo nivel!!

        1. Quem está dizendo isso é você. Se tivéssemos algum problema com Edson, o blog dele não encabeçaria nossa lista de links. E dou por encerrada a discussão.

  4. Adoro este blog, todos podem opinar à vontade, se gostou bem, se não amém, isso é muito bom – democracia e diálogo – e no entanto todo mundo está escutando a obra dos compositores, isso é lindo, me emociona: AAAAAAAAAAHHHHHHH!!!!
    só um comentariozinho, sobre o frevo: jah viu isso ao vivo? os dedos do pianista parecem que estão frevando!!! 🙂

        1. A questão não é ofensa, apenas há um excesso de comentários de sua parte, alguns inoportunos (como divulgar o endereço residencial alheio na internet), e ainda esse nick maluco que, como o mano PQP falou, parece um orgasmo. Não quero lhe tolher a palavra, mas veja aí seu modo de se expressar no blog.

    1. De minha parte, os comentários de Edson são em geral bem-vindos. E se fosse o caso, me entenderia diretamente com ele (que não tem nada a ver nesta história).

  5. Que pena – Eu tenho uma tese de doutorado sobre a obra de piano do M Nobre que foi escrito por um donzelo – é muito boa, analisa cada frase que o compositor escreveu para piano até 2002 – e na análise dele sobre o frevo ele faz esse pequeno comentário – e já que você se proclama um fã do M Nobre, se mora em São Paulo irá poder apreciar um recital com peças dele (entre outros compositores) para percussão,

    30 de Abril
    Centro Cultural São Paulo
    12:30h
    Sala Adoniran Barbosa
    Entrada Franca

    Programa
    Variações Rítmicas – Marlos Nobre
    ECO´S – Fernando Chaib
    Ensaio 90 – Mário Ficarelli
    Dimensões – Carlos Stasi

    12 de Maio
    SESC Pinheiros
    20:30h

    Programa
    Variações Rítmicas – Marlos Nobre
    Dimensões – Caros Stasi
    ECO´S – Fernando Chaib
    Cá Entre Nóis – Francisco Abreu
    Onze – Marco Antônio Guimarães

    Participações de Mari Claro (piano) e Nath Calan (percussão).

    Preço promocional do CD Dimensões nos dois concertos, apenas R$10,00!!

    Aproveitem e divulguem!!
    Abraços!, como dizia Pablo Casals, a música irá salvar o mundo!!!

      1. Então, este CD Dimensões será apresentado com Variações Rítmicas do Marlos Nobre – que lembra o frevo postado por nosso querido e amável CVL
        Me pergunto se o PQP ouviu o CD?

  6. Legal, PQP!! Legal, Zé!! Tomara que vocês gostem do recital!!
    (eu particularmente irei assistir via Youtube – estou nos USA)

    Só pra ser claro, a tese não é do Arrelia, e se chama The Stylistic Development in Selected Piano Works by Marlos Nobre

    – Nela o Tango e o Frevo deste CD são analisadas –

    essa tese foi aproveitada por outra na Universidade de Nebraska em 2007, de Nelson Neves: A comprehensive analysis of jazz elements in Marlos Nobre’s piano music through selected works –

    pra quem gosta de inglês, eis o abstract:

    This project began its life as a doctoral thesis at the University of Nebraska-Lincoln. My supervisor, Dr. Mark Clinton, during my preparation for one of my doctoral recitals, which was all about Brazilian music, provoked excellent ideas in me. As a result, after so many jazz elements found in Nobre’s piano music, I decided to write about them. Marlos Nobre has reacted favorably to almost every musical stimulus this century has offered. Consequently, it is only natural to expect some of his works to illustrate the confluence of jazz and classical styles. As a springboard for his compositional stimulus, the role of improvisation has been unavoidably interconnected from the beginning of his career up till today. Marlos Nobre is constantly exploring and developing his aesthetic arsenal also through the infusion of many tendencies and currents of modern and avant-garde music, with jazz being one of these elements in his works. The purpose of this study will focus on jazz elements in Marlos Nobre’s piano music through selected works such as Nazarethiana, Op. 2, Toccatina, Ponteio E. Final, Op.12, Homenagem A. Arthur Rubinstein, Op. 40, Sonata Breve, Op. 24, Sonatina, Op. 66, and Sonata Sobre Tema de Bartok, Op. 45. My analysis will attempt to reveal unique features of his compositional style; it will focus upon Nobre’s pulsating rhythms and energetic percussive sounds, and the formal procedures he employs, especially with regard to jazz elements such as syncopations, polyrhythmic structures, rhythmic displacements, diatonic, pentatonic and modal scales, the blues harmony, blue-notes, call and response patterns, walking bass, bebop lines, and quartal harmony. While the influence of jazz on his piano works is often indirect and in some cases subliminal, but strangely obvious after a close study of it, makes it clear to me that his musical aesthetic cannot be fully understood without acknowledging the significant debt he owes to that style of music which we call jazz. This study should serve as a valuable source of information for performers and musicians alike who are interested in the synthesis of classical and jazz elements in Nobre’s piano works.

    1. Sem problema quanto à sua identidade e às suas atividades no mundo real. Meu currículo também me orgulha bastante.

      É que, das pessoas que fazem graça, gosto daquelas realmente engraçadas.

      1. você tem problemas – não fiz piada nenhuma
        olha só, de novo:

        sobre o frevo: jah viu isso ao vivo? os dedos do pianista parecem que estão frevando!!! O QUE É SÉRIO, OS DEDOS FICAM PULANDO PARECENDO A DANÇA DO TÍTULO

        E ISSO É SÉRIO TAMBÉM: Eu tenho uma tese de doutorado sobre a obra de piano do M Nobre que foi escrito por um donzelo – é muito boa, analisa cada frase que o compositor escreveu para piano até 2002 – e na análise dele sobre o frevo ele faz esse pequeno comentário – e já que você se proclama um fã do M Nobre, se mora em São Paulo irá poder apreciar um recital com peças dele (entre outros compositores) para percussão,

        30 de Abril
        Centro Cultural São Paulo
        12:30h
        Sala Adoniran Barbosa
        Entrada Franca

        Programa
        Variações Rítmicas – Marlos Nobre
        ECO´S – Fernando Chaib
        Ensaio 90 – Mário Ficarelli
        Dimensões – Carlos Stasi

        12 de Maio
        SESC Pinheiros
        20:30h

        Programa
        Variações Rítmicas – Marlos Nobre
        Dimensões – Caros Stasi
        ECO´S – Fernando Chaib
        Cá Entre Nóis – Francisco Abreu
        Onze – Marco Antônio Guimarães

        Participações de Mari Claro (piano) e Nath Calan (percussão).

        Preço promocional do CD Dimensões nos dois concertos, apenas R$10,00!!

        Aproveitem e divulguem!!
        Abraços!, como dizia Pablo Casals, a música irá salvar o mundo!!!

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